A Coreia do Sul não enriqueceu porque estudou — estudou porque enriqueceu

A explicação mais repetida sobre o milagre coreano diz que tudo começou na escola. Uma tese da London School of Economics mostra que a ordem dos fatos é outra: quando a Coreia começou a exportar, sua população tinha menos anos de estudo que a brasileira. O que ela tinha era outra coisa — e o preço apareceu nos números de acidentes e mortalidade.

Sip Dölyn Editorial17 de agosto de 20269 min de leitura
Rua estreita de Jongno, em Seul, com fachadas cobertas de placas de hagwons, os cursos preparatórios privados coreanos, em foto de 1971
Rua de hagwons — os cursos preparatórios privados — em Jongno, Seul, em julho de 1971. · Photos taken by 전민조 and hosted by the National Museum of Korean Contemporary History · Public domain Fonte

Em 1955, a renda média de um coreano equivalia a 1,5% da renda média de um americano. Meio século depois, equivalia a 72%. No mesmo período, o brasileiro saiu de 5,5% para 8,8%. Ou seja: o Brasil começou várias vezes mais rico por pessoa e terminou muito, muito atrás.

Peça a alguém que explique esse salto e cronometre. Em menos de trinta segundos aparece a palavra educação. É a lição de política pública mais repetida do século XX: a Coreia investiu em capital humano, formou uma população instruída e disciplinada, e por isso conseguiu subir na cadeia industrial. Economistas influentes sustentam essa leitura, entre eles Dani Rodrik, para quem uma força de trabalho altamente educada foi um dos principais fatores por trás dos ganhos de produtividade coreanos depois de 1960.

Numa tese defendida na London School of Economics, o economista Nicolas Grinberg passou meio século de estatísticas de Brasil e Coreia a limpo — salários, lucros, câmbio, escolaridade, exportações — e chegou a um problema incômodo com essa história. Não que ela seja exagerada. É que ela está de trás para frente.

O país instruído era o outro

Comece pelo ponto de partida. Em 1945, quando a ocupação japonesa termina, 78% dos coreanos eram analfabetos. Não é um detalhe pitoresco: é a base populacional sobre a qual, duas décadas depois, se ergueria a indústria exportadora.

E quando a industrialização voltada para fora efetivamente começa, os anos médios de estudo da população coreana ainda estavam abaixo dos brasileiros. Note bem o que isso significa. O Brasil daquele momento não era nenhum modelo educacional — em 1970, um terço da população adulta ainda não sabia ler. Mesmo assim, estava à frente. O país com a população mais escolarizada dos dois era aquele que não decolou.

PaísAnoTaxa de analfabetismo
Coreia194578
Brasil197033
Brasil198025
Brasil199018.7
Brasil200511.1
Percentual da população. Os anos disponíveis para cada país não coincidem. · Elaboração Sip Dölyn com dados de Grinberg, 2011, p. 208.

O próprio autor faz questão de anotar duas ressalvas que, ironicamente, reforçam o argumento. A média nacional brasileira provavelmente subestima a escolaridade de quem efetivamente trabalhava na indústria, porque puxa para baixo com populações rurais e periferias urbanas. E o Brasil já implementava treinamento profissional em larga escala desde os anos 1940, bem antes de a Coreia fazer o mesmo. Se há distorção na comparação, ela não está favorecendo o Brasil.

A escola que ensinava, sobretudo, a obedecer

A expansão educacional coreana existiu, e foi rápida. Só que veio junto e depois do processo industrial, não antes dele. E, quando se olha o que essa escola de fato ensinava, a narrativa do capital humano fica ainda mais difícil de sustentar.

Até os anos 1990, o sistema coreano funcionava com turmas grandes e muitos alunos por professor, o que empurrava o ensino para a memorização e a recitação — método frequentemente acusado de sufocar criatividade e pensamento independente, mas extremamente eficaz em produzir disciplina e capacidade de trabalho coletivo. Um estudo citado na tese, de Mason e coautores, observa que o que distinguia o currículo coreano de outros países não era a ênfase em ciência e tecnologia. Era a ênfase em educação moral, anticomunismo e disciplina. Os autores registram o desconforto com uma franqueza rara:

É difícil encaixar essa característica na contribuição da educação ao desenvolvimento de recursos humanos.
Mason e coautores (1989), citados na tese

Não é retórica antiga: até 2007, um módulo chamado "vida disciplinada" ainda constava do currículo obrigatório dos dez primeiros anos de escola na Coreia.

A ciência chegou depois do navio

O mesmo padrão aparece no andar de cima do sistema educacional. Em 1981, a Coreia tinha 536 cientistas e engenheiros em pesquisa e desenvolvimento para cada milhão de habitantes; o Brasil, 175. Vantagem coreana, sem dúvida. Só que 1981 já é tarde demais para explicar coisa alguma: entre 1965 e 1980, as exportações coreanas cresceram 30% ao ano, e as exportações industriais, 36%. Em 1965, as vendas externas equivaliam a 8% do PIB coreano; em 1980, a 44,5%.

Traduzindo: quando os pesquisadores coreanos aparecem em massa nas estatísticas, o país já era há quinze anos uma potência exportadora. A ciência acompanhou a indústria. Não a inaugurou.

Cientistas e engenheiros em P&D por milhão de habitantes

CoreiaBrasil
  • Coreia
  • Brasil
Ver os dados
AnoCoreiaBrasil
1981536175
19851.017391
19952.235168
A distância se abre depois que a máquina exportadora coreana já estava rodando. · Elaboração Sip Dölyn com dados de Grinberg, 2011, p. 237.

Então o que ela tinha?

Se não era escolaridade, o que a Coreia tinha em meados dos anos 1960 que o Brasil não tinha? A resposta da tese não está dentro da Coreia. Está no mundo.

Naquele exato momento, a indústria mundial passava por uma transformação técnica — mecanização pesada, automação, depois microeletrônica — que fazia algo específico com o trabalho: simplificava tarefas que antes dependiam de habilidade acumulada. Aquele saber prático que um operário levava anos para desenvolver na mão, difícil de escrever num manual, ia sendo transferido para a máquina. O que sobrava do outro lado era uma tarefa que quase qualquer pessoa podia executar, desde que executasse rápido, muitas horas e sem contestar.

É esse o argumento central de Grinberg. A partir do fim dos anos 1960, o capital industrial coreano passou a maximizar lucro produzindo para o mercado mundial com mão de obra barata e disciplinada, que se tornou particularmente produtiva justamente nessas atividades simplificadas. O que passou a valer não era o que o trabalhador sabia. Era quanto ele custava — e quanto aguentava.

Os números de custo são brutais. Em 1955, o custo de uma hora de trabalho manual na Coreia equivalia a 2% do custo americano; em 1970, a média industrial coreana era 3,5% da americana. No Brasil, o mesmo custo já era 9% do americano em 1955 e chegou a 28% em 1980. E a produtividade coreana, nesse ponto de partida, era baixíssima: cerca de 6% do nível americano em meados dos anos 1960. Ela sobe depois — 12% ao ano entre 1965 e o início dos anos 1980, até alcançar um quarto do nível dos Estados Unidos. Primeiro veio o trabalho barato; a produtividade veio na esteira.

A conta foi paga em outra moeda

"Barata e disciplinada" é uma expressão econômica. Traduzida para o corpo de quem trabalhava, ela tem outra aparência.

Durante boa parte do período estudado, os acidentes industriais e as taxas de rotatividade na Coreia foram substancialmente mais altos que nos Estados Unidos, no Brasil, no Japão e em Taiwan. O resultado, registrado nos dados reunidos pela tese, foi uma mortalidade particularmente elevada entre trabalhadores coreanos — e de forma notável entre as mulheres recém-incorporadas à indústria, saídas do campo para a linha de montagem.

A duração da jornada dá a medida de quanto isso durou. Ainda em 2005, quando a Coreia já era um país rico, o trabalho industrial coreano era 27% mais longo que o americano. No Brasil, a jornada industrial ficou historicamente apenas 5% a 10% acima do padrão americano. Não é diferença de nível de desenvolvimento. É diferença de que tipo de vantagem cada indústria estava vendendo ao mundo.

A conclusão de Grinberg sobre esse ponto é uma das frases mais frias da tese, e das mais precisas:

De fato, apenas uma sociedade com acesso a uma massiva população excedente, como a coreana de então, pode se dar ao luxo do desgaste acelerado de sua força de trabalho.
Nicolas Grinberg, London School of Economics, 2011

O que veio depois, e o que demorou

Seria desonesto parar aqui, porque a história não termina no desgaste. Ela termina em salários altos. O poder de compra do salário-hora industrial coreano era menos de 10% do americano no fim dos anos 1960; chegou a 20-22% no fim dos anos 1980; e, em meados dos anos 2000, alcançou 55% da média americana — 80%, no caso dos trabalhadores manuais efetivos. Isso é uma transformação material real, na vida de milhões de pessoas.

PeríodoTodos empregadosTrabalhadores manuais permanentes
Final dos anos 1960<10-
Final dos anos 198020-22-
Meados dos 20005580
O salário sobe — mas décadas depois da entrada no mercado mundial. · Elaboração Sip Dölyn com dados de Grinberg, 2011, p. 214.

E a proteção social? Veio com a democratização, nas reformas de 1988-89 — só que numa versão bem mais estreita do que a memória costuma guardar. A cobertura valia para empresas com mais de dez empregados, o que deixava de fora exatamente os trabalhadores mais precários, e o sistema de pensões só se tornaria efetivo vinte anos depois. A rede existia. Demorou, e tinha buracos do tamanho das pequenas fábricas.

Uma ressalva importante sobre a força do argumento: quando Grinberg afirma que sem esse tipo específico de força de trabalho o projeto industrial coreano não teria funcionado, ele está raciocinando por contrafactual — reconstruindo logicamente o que teria acontecido se as condições fossem outras. É uma inferência bem construída e sustentada por dados, não um experimento. Quem discordar da moldura teórica pode ler os mesmos números de outro jeito.

A ordem dos fatos importa

O que resta, no fim, não é uma refutação da educação — é uma inversão de causa e efeito com consequências práticas. Se a escolaridade coreana fosse a causa do crescimento, a receita para qualquer país pobre seria clara e relativamente barata: estude primeiro, industrialize depois. Se ela foi consequência, a receita evapora. O Brasil, que tinha mais anos de estudo por habitante e treinamento profissional desde os anos 1940, é a evidência viva de que a fórmula não funciona sozinha.

A escola coreana daquele período não formou engenheiros para o milagre. Ela formou gente pontual, obediente e capaz de trabalhar em grupo — e o mercado mundial, naquele momento exato, estava pagando bem por isso. A educação técnica de massa veio depois, quando já havia com o que pagá-la. O milagre não foi o filho da escola. Foi o pai dela. E cobrou o adiantamento em outra moeda: horas, acidentes e vidas de mulheres que tinham acabado de chegar do campo.

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Referências

  1. Nicolas Grinberg. Transformations in the Korean and Brazilian Processes of Capitalist Development between the mid-1950s and the mid-2000s: The Political Economy of Late Industrialisation. London School of Economics and Political Science. 2011 Acessar
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