A montadora bem menos eficiente que a Toyota — e que lucrava mais

Entre 1985 e 1996, a Hyundai teve taxa de lucro maior que a da Toyota — sendo muito menos produtiva. Uma tese da London School of Economics mostra por que esse absurdo aparente é, na verdade, a regra que organiza a indústria mundial — e por que o Brasil, com salários igualmente baixos, ficou de fora.

Sip Dölyn Editorial20 de agosto de 20268 min de leitura
Linha de montagem da fábrica da Hyundai em Ulsan, na Coreia do Sul, com carrocerias de carros suspensas sobre a esteira
A linha de montagem da Hyundai em Ulsan, na Coreia do Sul, em 2006. Imagem ilustrativa: é posterior ao período analisado na matéria. · User: Anonyme · CC BY 2.5 Fonte

Pense em duas montadoras. Uma delas é o padrão-ouro mundial de organização industrial, o lugar que consultores atravessam o planeta para visitar. A outra é uma coreana que, uma década antes, mal existia no mapa automotivo e cuja produtividade do trabalho era muito inferior à da primeira.

Qual das duas ganha mais dinheiro?

A resposta, ao longo de uma década inteira, foi a coreana. Entre 1985 e 1996, a taxa de lucro da Hyundai ficou em torno de 11% ao ano. A da Toyota, no mesmo período, em 8,36% — ou 10,57%, se você for generoso e incluir os juros que a Toyota ganhava sobre seus ativos financeiros. Numa comparação de balanços um pouco mais longa, de 1983 a 1997, a distância aparece maior ainda: 13,32% para a coreana contra 9,29% para a japonesa.

Este é o tipo de número que costuma ser tratado como erro de planilha. Na tese de doutorado que Nicolas Grinberg defendeu na London School of Economics, ele é tratado como pista. É a partir dele que se entende uma coisa que as histórias de "milagre econômico" quase sempre escondem: eficiência e lucratividade não são a mesma coisa, e a diferença entre as duas explica boa parte da geografia industrial do mundo.

O tamanho real do abismo

A tese não quantifica empresa contra empresa a distância de produtividade entre Hyundai e Toyota — diz apenas que era muito grande. Mas mede o buraco no nível em que os dados existem: o da indústria inteira. Entre 1975 e 1981, produzir um veículo na indústria automotiva coreana consumia cerca de oito vezes mais tempo de trabalho do que na japonesa. Em 1981, o número era 8,1. A distância despencou ao longo dos anos 1980 — em 1988 já estava em 2,7 —, mas continuava sendo uma desvantagem que, em qualquer manual de negócios, decretaria a morte da empresa.

Quantas vezes mais trabalho para montar um carro na Coreia do que no Japão

Ver os dados
PeríodoRazão Coreia/Japão
1975-19818
19818,1
19882,7
Comparação entre as indústrias automotivas dos dois países como um todo — não entre Hyundai e Toyota especificamente. A desvantagem coreana caiu rápido, mas seguia grande no período em que a Hyundai lucrava mais que a Toyota. · Elaboração Sip Dölyn com dados de Grinberg, 2011, p. 145.

E o próprio autor faz questão de anotar que esse "oito vezes" é, se algo, generoso com os coreanos: a indústria da Coreia era muito menos autossuficiente e importava uma proporção maior de seus insumos, de modo que parte do trabalho embutido em cada carro simplesmente não aparecia na conta doméstica. A diferença real de produtividade era maior do que o número sugere.

A aritmética desconfortável

A saída do enigma é constrangedoramente simples: o trabalho japonês custava muito mais caro. Se você gasta o triplo do tempo mas paga um quarto do salário, você sai na frente. Não há mágica, não há gênio empresarial, não há cultura confuciana. Há uma multiplicação.

A tese mede esse diferencial de forma direta no setor vizinho, a siderurgia, onde os dados de custo são comparáveis linha a linha. Em 1985, a hora de trabalho numa usina custava US$ 2,85 na Coreia e US$ 11,70 no Japão. A usina coreana precisava de 8,20 horas-homem por tonelada; a japonesa, de 5,35. Menos produtiva, portanto — e ainda assim muito mais barata em salários por tonelada produzida.

InsumoJapãoCoreiaBrasil
Mão de obra632526
Minério de ferro444824
Carvão ou coque525568
Outra energia152427
Diversos112118129
Custo operacional total286270274
Repare na primeira e na última linha: o custo total é praticamente empatado, mas a composição é radicalmente diferente. O Japão gastava em salários o que a Coreia e o Brasil não gastavam. · Elaboração Sip Dölyn com dados de Grinberg, 2011, p. 119.

É a tabela inteira num olhar: no fim da conta, os três países chegam quase ao mesmo custo por tonelada. O que muda é como chegam lá. O Japão compra eficiência. A Coreia e o Brasil compram horas baratas.

Por que isso não funcionava antes

Existe uma versão antiga e cômoda dessa ideia, associada ao economista Arthur Lewis: haveria sempre trabalho camponês excedente e barato o bastante para compensar qualquer atraso de produtividade. É a economia como pura aritmética de salários, válida em qualquer lugar e em qualquer época.

É exatamente aqui que a tese de Grinberg se recusa a ser simples — e o argumento é a parte mais interessante do trabalho. Trabalho barato só vira vantagem competitiva quando o trabalho em questão pode ser feito por alguém sem perícia acumulada. Durante a maior parte da história industrial, não podia. Fabricar aço ou motores dependia de um saber prático que o operário levava anos acumulando no chão de fábrica, difícil de escrever num manual e impossível de importar num contêiner. Contra isso, salário baixo não resolvia nada: um trabalhador barato que não sabe fazer a peça produz peça ruim.

O que muda entre os anos 1950 e 1970 é técnico. As linhas de transferência automatizadas, as máquinas-ferramenta de controle numérico, depois o lingotamento contínuo e a microeletrônica foram, uma a uma, transferindo aquele conhecimento tácito do operário para dentro da máquina. O tempo de treinamento necessário desabou. E, no instante em que a habilidade migra para o equipamento, o preço da hora de trabalho deixa de ser um detalhe da contabilidade e vira a variável que decide onde a fábrica será construída.

Foi essa mudança — global, e não coreana — que reposicionou a Coreia. Antes de meados dos anos 1960, argumenta a tese, o país acumulava sobre uma base parecida com a brasileira, apoiado em ajuda externa maciça e num excedente agrário limitado. Depois, o capital industrial coreano descobriu que dava para maximizar lucro produzindo para o mundo inteiro, com uma força de trabalho barata e disciplinada operando tarefas que a técnica havia simplificado. Em 1970, a Coreia produzia 28.819 veículos no ano todo. Em 2007, produzia 4,1 milhões, com cerca de metade indo para fora.

O Brasil tinha o salário baixo. E não usou.

Aqui a comparação fica desconfortável para quem gosta de explicações por virtude nacional. Olhe de novo a tabela de 1985: a mão de obra brasileira custava US$ 26 por tonelada, praticamente o mesmo que os US$ 25 coreanos. Em 1996, no mesmo produto, o custo salarial brasileiro por tonelada já era menor que o coreano — US$ 70 contra US$ 89 —, e o custo operacional total do Brasil era o mais baixo dos três países. O ingrediente supostamente decisivo estava aqui, disponível, barato.

O Brasil não exportou. Produziu para dentro.

A explicação da tese é a sua peça mais ousada, e ela inverte a narrativa usual do fracasso brasileiro. Não se trata de política mal executada, burocracia ruim ou falta de "coesão" estatal. Trata-se de que, no Brasil, o capital industrial — em boa parte multinacional — tinha uma segunda fonte de rentabilidade que os coreanos não tinham: uma fatia da renda extraordinária gerada pelo campo e pelas minas, transferida à indústria por câmbio sobrevalorizado, taxação de exportações e crédito subsidiado. Com esse colchão, dava para produzir em escala pequena para o mercado interno, com custo alto, e ainda assim lucrar bem. Entre 1955 e 1980, calcula a tese, essa riqueza extraordinária equivalia a cerca de metade dos lucros totais da economia brasileira; na Coreia, a 19%.

Ou seja: os dois países tinham trabalho barato. Só um deles precisava usá-lo para competir lá fora.

Duas ressalvas honestas, porque elas mudam o peso das frases acima. A primeira: a afirmação forte de que nenhuma fábrica brasileira alcançava escala internacionalmente competitiva depende de qual critério de escala mínima se adote, e não há consenso na literatura sobre esse número. A segunda: as taxas de lucro que abrem esta reportagem — os 13,32% da Hyundai, os 9,29% da Toyota — são estimativas construídas com premissas padronizadas sobre giro de capital e prazos de pagamento, não leituras diretas dos balanços de cada empresa. A ordem de grandeza é o que importa; a segunda casa decimal, não.

A mesma conta, uma geração depois

Em 2003, a tese repete o exercício de custo siderúrgico com um país a mais na tabela. A Coreia, agora, é o lado caro da comparação: US$ 15 a hora, 3,9 horas-homem por tonelada, US$ 59 de custo salarial por tonelada — bem abaixo dos US$ 116 japoneses, mas já longe daquele US$ 2,85 de 1985.

O país novo na tabela é a China. Ela precisa de 12,7 horas-homem para produzir a mesma tonelada: mais de três vezes o trabalho da Coreia. Uma diferença de produtividade brutal, do tipo que faz manchete sobre atraso industrial. E o custo salarial chinês por tonelada é de US$ 22 — pouco mais de um terço do coreano. A hora custa US$ 1,75.

É a mesma multiplicação que colocou a Hyundai à frente da Toyota, refeita duas décadas depois com outros protagonistas. A vantagem nunca foi da empresa que fazia melhor. Foi da empresa que estava no país onde a hora de trabalho era mais barata — até o dia em que apareceu um país mais barato ainda.

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Referências

  1. Nicolas Grinberg. Transformations in the Korean and Brazilian Processes of Capitalist Development between the mid-1950s and the mid-2000s: The Political Economy of Late Industrialisation. London School of Economics and Political Science. 2011 Acessar