O país que lucrava sem precisar competir
Uma tese da London School of Economics compara Brasil e Coreia do Sul ao longo de cinquenta anos e chega a uma explicação incômoda para o quebra-cabeça brasileiro: a indústria daqui era lucrativa sem ser eficiente porque vivia de uma fatia da riqueza do solo. Sem competir, não havia por que aprender a competir.

Em 1974, as fábricas de multinacionais americanas instaladas no Brasil exportavam 5,5% de tudo o que produziam. As mesmas empresas, nas suas plantas do Canadá e da Europa, exportavam entre 19% e 23% — número de 1970, mas a comparação já diz o essencial. Não era um detalhe estatístico. Era um retrato.
O Brasil daquela época não era um país sem indústria. Tinha montadoras, siderúrgicas, petroquímica, engenheiros, aço de qualidade. Tinha, aliás, muito mais indústria pesada do que a Coreia do Sul teria por mais uma década. O que o Brasil não tinha era um motivo para vender essa produção lá fora.
| País/Região | Ano | % exportado |
|---|---|---|
| Brasil | 1974 | 5,5% |
| Canadá e Europa | 1970 | 19-23% |
É desse ponto que parte a tese de doutorado que Nicolas Grinberg defendeu na London School of Economics em 2011, comparando as trajetórias de Brasil e Coreia do Sul de meados dos anos 1950 a meados dos anos 2000. A pergunta que ele persegue é simples de enunciar e difícil de responder: por que meio século de industrialização brasileira nunca produziu um país que vende manufaturas para o mundo?
A resposta não estava dentro da fábrica
As explicações mais conhecidas olham para dentro do processo produtivo ou para dentro do Estado. Ou o Brasil protegeu demais sua indústria e a deixou preguiçosa, ou protegeu mal, ou tinha burocracia ruim, ou políticos incompetentes, ou empresários acomodados. Grinberg propõe olhar para outro lugar: para de onde vinha o dinheiro que tornava aquelas fábricas rentáveis.
Há um tipo de riqueza que não nasce do trabalho industrial nem da eficiência de ninguém. É o ganho extra que se obtém por controlar um recurso que não pode ser reproduzido — terra fértil, minério, condições naturais que outro país simplesmente não tem como fabricar. Os economistas chamam isso de renda da terra. O Brasil tinha muito. O mundo pagava por ela.
O argumento central da tese é que essa riqueza não ficou toda com quem era dono de terra ou de mina. Uma parte dela era desviada, de forma sistemática, para dentro da indústria — por três canais principais: um câmbio mantido artificialmente valorizado, que fazia o exportador de café, soja ou minério receber menos moeda nacional por cada dólar vendido enquanto barateava as máquinas importadas; a taxação direta das exportações primárias; e o crédito público subsidiado dirigido ao capital industrial.
E aqui está a parte que desarruma o debate clássico sobre substituição de importações. Isso não era proteção a uma indústria nascente que um dia cresceria e sairia para o mundo. Os maiores beneficiários eram as multinacionais já instaladas — empresas maduras, com tecnologia madura, que não estavam aprendendo coisa alguma.
O processo de 'subsidiação' da valorização do capital industrial com uma parcela da renda da terra não pode ser considerado uma forma de promoção de 'indústria nascente', sobretudo quando os maiores beneficiários desse 'apoio' têm sido as multinacionais.
Bélgica e Índia no mesmo endereço
Com esse colchão embaixo, a conta da fábrica fecha de um jeito estranho. Não é preciso produzir barato. Não é preciso produzir em grande escala. Não é preciso vender para 200 milhões de pessoas em três continentes. Basta vender caro para quem pode pagar caro — e no Brasil dos anos 1960 havia um número muito específico de gente nessa condição.
Um economista brasileiro descreveu o país da época como uma economia com um núcleo de cerca de 10 milhões de consumidores com poder de compra equivalente ao da Europa Ocidental, convivendo com 30 milhões de consumidores de poder aquisitivo muito menor. Batizou o arranjo de Belíndia: Bélgica e Índia dentro das mesmas fronteiras. Só para dar a escala do que sobrava fora dessa conta: o Brasil já tinha 70 milhões de habitantes em 1960.
A 'Belíndia': o mercado que a indústria brasileira atendia
Ver os dados
| Segmento | Número de consumidores (milhões) |
|---|---|
| Poder de compra similar à Europa Ocidental | 10 |
| Poder de compra significativamente menor | 30 |
Uma fábrica de automóveis desenhada para atender dez milhões de europeus perdidos no meio do trópico é, pelos padrões mundiais, uma fábrica pequena. Ela produz caro. Ela é, tecnicamente, ineficiente. E ainda assim ela dá lucro — porque a diferença entre o custo alto e o preço praticado é coberta por aquela riqueza que veio do solo e chegou até ali pela porta dos fundos do câmbio e do crédito.
O sinal mais eloquente disso aparece num estudo que a tese recupera: as afiliadas brasileiras de empresas americanas obtinham taxas de retorno médias maiores do que empresas de porte comparável nos próprios Estados Unidos. Vale reler devagar. A operação instalada no país periférico, com escala menor e custo maior, era mais lucrativa que a operação no coração do capitalismo industrial. Isso não se explica por mão de obra barata — se explicasse, essas fábricas teriam saído exportando. Explica-se por uma fonte de lucro que não vinha da produção.
Do outro lado do mundo, o mesmo truque — só que pequeno
A parte comparativa da tese é onde o argumento fica realmente desconfortável para as narrativas de sempre. Antes de meados dos anos 1960, diz Grinberg, a Coreia do Sul acumulava capital sobre uma base estruturalmente parecida com a brasileira: uma renda da terra limitada, complementada por um influxo maciço de ajuda externa e por parte dos lucros que o pequeno capital agrário deixava de reter. Também ali havia um colchão. Era só um colchão magro — e, ao contrário do solo brasileiro, dependia da decisão de outro país continuar pagando.
O que muda a trajetória coreana, na leitura da tese, não é uma virtude nacional nem um golpe de gênio de planejadores. É uma transformação tecnológica que acontece fora da Coreia: a mecanização, a automação e depois a eletrônica simplificam tarefas industriais que antes dependiam de habilidade acumulada no chão de fábrica — aquele saber prático que um operário leva anos para adquirir e não consegue escrever num manual. Quando a máquina absorve esse saber, o trabalhador barato e disciplinado de repente vira produtivo o bastante para produzir a preço mundial.
A partir do fim dos anos 1960 e início dos 1970, o capital industrial coreano passa a maximizar lucro fazendo exatamente o que o capital industrial no Brasil não tinha razão para fazer: vender para o mundo. Não porque fosse mais virtuoso. Porque não havia alternativa mais rentável disponível.
Essa inversão é o coração do trabalho. A pergunta deixa de ser "por que o Brasil errou?" e passa a ser "o que era mais lucrativo fazer em cada lugar?". A incapacidade brasileira de sair da posição de fornecedor de matérias-primas, segundo Grinberg, não veio de política mal desenhada nem de instituição defeituosa: veio da possibilidade concreta, e perfeitamente racional, de ganhar dinheiro produzindo em escala pequena para o mercado interno, compensando o custo alto com a fatia da abundante renda agrária e mineral do país.
E as instituições, então?
Existe uma explicação muito mais popular para tudo isso: a Coreia teria tido um Estado coeso, competente e razoavelmente honesto, e o Brasil, um Estado capturado e corrupto. A tese vai atrás dessa história e encontra dois problemas.
O primeiro é factual. Hoje é amplamente reconhecido — inclusive por autores que antes sustentavam o contrário — que os burocratas do Estado coreano eram tão corruptos quanto os brasileiros durante todo o período estudado. O mito do funcionário público asiático incorruptível não sobrevive à literatura mais recente sobre a própria Coreia.
O segundo é lógico, e é mais grave. As análises que atribuem o sucesso à "coesão" do Estado identificam essa coesão justamente nos períodos de crescimento industrial acelerado, e identificam a falta dela nos períodos de estagnação. A causa é deduzida do efeito que ela deveria explicar. É a velha confusão entre "aconteceu junto" e "provocou" — e, uma vez apontada, o argumento inteiro perde o chão.
Há ainda uma ironia histórica que a tese registra com precisão. Nos anos 1950, quando a Ásia ia mal e a América Latina ia bem, autores importantes explicavam o mau desempenho asiático apelando a... fatores culturais e institucionais asiáticos. Décadas depois, com o placar invertido, os mesmos traços passaram a explicar o sucesso coreano. Uma explicação que serve igualmente bem para o fracasso e para o êxito não está explicando muita coisa.
O que sustenta esses números — e o que não sustenta
O trabalho não é um ensaio de opinião. Para sustentar o argumento, Grinberg constrói séries estatísticas próprias — de renda da terra, de sobrevalorização cambial, de taxas de lucro — e as cruza com estudos de caso setoriais, como a siderurgia e a indústria automobilística. Nos apêndices, monta até um modelo para estimar a lucratividade de empresas específicas, como a siderúrgica coreana POSCO. Mas o próprio autor avisa que esses números não são medições diretas de balanço: são estimativas construídas com premissas padronizadas a partir de fontes agregadas.
E é aí que ele levanta a mão mais de uma vez. Para calcular quanta riqueza do solo foi transferida à indústria, é preciso primeiro estimar o quanto o câmbio estava artificialmente valorizado — e isso exige escolher um período de referência em que se supõe que essa distorção estivesse, em média, ausente. Essa escolha é um julgamento do pesquisador. Não pode ser auditada de fora. Quem discordar dela verá os números mudarem.
O mesmo vale para conclusões fortes sobre a indústria automobilística: a afirmação de que nenhuma fábrica brasileira dos anos 1990 tinha escala competitiva depende de qual critério de escala mínima eficiente se aceita — e não há consenso na literatura sobre esse número.
Há, por outro lado, uma ressalva que corre na direção oposta à que se esperaria de um autor defendendo sua própria tese: ao usar a taxa de lucro industrial como referência para estimar o lucro "normal" da atividade agrária, o método provavelmente subestima o tamanho real da renda da terra. Se o cálculo estiver errado, o erro tende a ser a favor de quem duvida do argumento, não a favor de quem o defende.
Vale acrescentar uma última advertência do próprio Grinberg: a versão mais límpida e sedutora da tese, aquela que cabe num parágrafo, é apresentada por ele como esquemática e estilizada. A prova vem depois, nos capítulos técnicos. A história bonita e a história demonstrada não são exatamente o mesmo texto — e é honesto que ele avise.
O colchão sempre esteve embaixo
Fica, no fim, uma imagem difícil de desmontar. Durante décadas, o país tratou a industrialização como a saída da armadilha de viver de exportar comida e minério. Ergueu tarifas, criou estatais, atraiu montadoras, planejou em ciclos de cinco anos. E financiou tudo isso, segundo esta leitura, com dinheiro que vinha exatamente da comida e do minério.
A indústria brasileira não deixou de competir no mercado mundial por incompetência. Ela deixou de competir porque, enquanto o solo pagou a conta, competir era o pior negócio disponível. Um país pode passar cinquenta anos construindo fábricas para escapar da terra e descobrir, no fim, que era a terra que estava pagando as fábricas.
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Referências
- Nicolas Grinberg. Transformations in the Korean and Brazilian Processes of Capitalist Development between the mid-1950s and the mid-2000s: The Political Economy of Late Industrialisation. London School of Economics and Political Science. 2011 Acessar