A usina que o Banco Mundial disse que não devia existir
Em 1968, a Coreia do Sul decidiu construir uma siderúrgica maior que seu próprio mercado, contra o conselho de todos. Duas décadas depois, a POSCO rodava a 99% da capacidade e as estatais brasileiras davam prejuízo. Uma tese da LSE mostra onde estava a diferença real — e não era competência de gestão.

Em 1966, a Coreia do Sul produzia menos de 40% do aço que consumia. O consumo total do país inteiro era de cerca de meio milhão de toneladas por ano, e não havia ali uma única usina integrada de grande porte — daquelas que entram com minério de um lado e saem com bobinas de aço do outro.
Dois anos depois, o governo coreano decidiu construir uma. E não uma usina do tamanho do mercado coreano: uma usina maior que o mercado coreano.
A reação internacional foi de um consenso raro. Governos estrangeiros e agências internacionais se recusaram a participar do projeto, por considerá-lo inviável em escala. Um estudo do Banco Mundial cravou a lógica: qualquer usina maior do que o mercado doméstico coreano estava condenada ao fracasso. O financiamento não veio. A usina foi construída assim mesmo, em Pohang, e se chamou POSCO.
Se, naquele momento, alguém tivesse de apostar em qual país emergente se tornaria uma potência siderúrgica, a resposta óbvia não era a Coreia. Era o Brasil. O Brasil já tinha três produtores de aço de qualidade em operação, um mercado interno incomparavelmente maior e minério de ferro em casa. Uma década depois, a situação havia se invertido radicalmente.
O placar de 1985
Em 1985, a POSCO operava com 99% de utilização da capacidade instalada. As maiores siderúrgicas japonesas — as mesmas que haviam ensinado o mundo a fazer aço barato — rodavam, em média, a 52%. Parte dessa ociosidade japonesa era consequência direta da entrada da própria POSCO no mercado mundial: a recém-chegada não estava dividindo o bolo, estava tirando fatia dos donos da casa.
No mesmo ano, as duas grandes estatais brasileiras da mesma geração industrial, a Açominas e a CST, operavam com taxa de lucro negativa: -3,5% e -0,83%.
A explicação fácil está pronta na ponta da língua de qualquer um: gestão. O Estado coreano era competente, disciplinado, coeso; o Estado brasileiro era o Estado brasileiro. É uma história confortável porque confirma o que já se pensava antes de olhar os números. O problema é que, quando Nicolas Grinberg foi olhar os números — numa tese de doutorado da London School of Economics que reconstrói cinco décadas de contas de Brasil e Coreia —, a diferença não apareceu onde ela deveria aparecer.
A conta que não fecha
Comece pelo mais elementar: quanto custava, em 1985, produzir uma tonelada de bobina de aço laminada a frio numa usina integrada eficiente de cada país.
O custo de fazer uma tonelada de aço em 1985
- Japão
- Coreia
- Brasil
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| Insumo | Japão | Coreia | Brasil |
|---|---|---|---|
| Mão de obra | 63 | 25 | 26 |
| Minério de ferro | 44 | 48 | 24 |
| Carvão ou coque | 52 | 55 | 68 |
| Outra energia | 15 | 24 | 27 |
| Diversos | 112 | 118 | 129 |
| Custo operacional total | 286 | 270 | 274 |
Leia a última linha de novo. Coreia: 270 dólares. Brasil: 274. A diferença é de menos de 2% — e o Brasil ainda tinha o minério de ferro mais barato da tabela, pela razão óbvia de que o minério estava debaixo dos pés. Do ponto de vista do custo de fazer aço, o Brasil de 1985 era competitivo. Vale registrar que essas contas cobrem o custo operacional: não incluem despesas administrativas e financeiras, nem, em alguns casos, a depreciação. E é exatamente aí, fora da linha de produção, que a diferença estava escondida.
Não era o aço. Era a usina.
A POSCO tinha uma política simples e chata: comprar equipamento pelo menor preço disponível no mundo. As estatais brasileiras compravam equipamentos e serviços de construção de empresas locais, a preços substancialmente inflados. O resultado, medido em custo de construção por mil toneladas de capacidade instalada, é constrangedor:
POSCO, em Pohang: US$ 500
Açominas: US$ 1.000
CST: US$ 3.000
Açominas e CST foram concluídas por volta de 1985, na mesma janela tecnológica. A CST custou seis vezes mais, por unidade de capacidade, do que a usina que o Banco Mundial havia declarado inviável.
E aqui vem o número que reorganiza a história inteira. Grinberg refaz as contas das duas estatais brasileiras substituindo o preço pago pelo capital fixo por preços internacionais — mantendo tudo o mais igual, mesma operação, mesmos trabalhadores, mesmo mercado. As taxas de lucro deixam de ser -3,5% e -0,83% e passam a 16,3% na Açominas e 6,8% na CST.
Ou seja: as siderúrgicas brasileiras não eram empresas ruins produzindo aço caro. Eram empresas viáveis que se tornaram deficitárias por causa do preço que pagaram para existir.
Quem estava pagando a conta, e por quê
Isso não é história de incompetência, e é aqui que a tese fica interessante. Sobrepreço em equipamento nacional não é acidente administrativo: é transferência. Cada dólar a mais que a CST pagou por uma peça brasileira foi um dólar que entrou no caixa de um fabricante brasileiro de bens de capital que, aos preços internacionais, não teria vendido nada.
O argumento central de Grinberg é que a industrialização brasileira do pós-guerra funcionava assim de forma sistemática — e podia funcionar assim porque havia de onde tirar. O país gerava uma riqueza extraordinária que não vinha da eficiência da indústria, mas do controle de recursos naturais: terra agrícola e minério vendidos a preços internacionais. Os economistas chamam isso de renda da terra. Câmbio sobrevalorizado, tarifas e crédito público subsidiado eram os canos por onde parte dessa riqueza escorria do setor primário para o industrial.
O efeito é uma indústria que consegue ser lucrativa produzindo em escala pequena, para o mercado interno, sem nunca precisar ganhar de ninguém lá fora. A Coreia não tinha esse colchão. Não havia renda da terra abundante para amortecer erro de preço. Comprar equipamento caro não era uma escolha política ruim: era, para o capital coreano, simplesmente inviável.
O Brasil não deixou de competir porque fracassou. Ele não competiu porque não precisava.
O trabalho barato que não era tão barato assim
Volte à tabela de custos de 1985 e olhe a linha da mão de obra: 63 dólares por tonelada no Japão, 25 na Coreia, 26 no Brasil. Empatados, coreanos e brasileiros. Só que o dólar mente.
Quando se corrige o valor brasileiro pelo poder de compra real — isto é, quando se pergunta o que aquele salário de fato comprava no Brasil, em vez de aceitar o que a taxa de câmbio dizia —, o custo unitário de mão de obra brasileiro sobe de 26,10 para 41,89 dólares por tonelada. O coreano, no mesmo cálculo, era 23,37. O trabalhador brasileiro parecia barato porque o câmbio afirmava que ele era barato. O trabalhador coreano era barato.
O quanto isso importava para a POSCO tem medida. Grinberg simula o que aconteceria se a empresa pagasse salários japoneses em 1985: sua taxa de lucro, calculada a preços de exportação, cairia para cerca de -2,3%. E se, além de pagar como o Japão, seus trabalhadores fossem tão produtivos quanto os japoneses? O lucro voltaria, mas para cerca de 9%. A vantagem coreana não estava em produtividade superior. Estava em custo do trabalho — com produtividade inferior.
A corrida que ninguém viu
Havia ainda uma disputa técnica silenciosa acontecendo. O lingotamento contínuo é uma tecnologia que molda o aço líquido diretamente em formas semiacabadas, sem passar pela etapa antiga de resfriar em lingotes e reaquecer. Elimina uma fase inteira da produção, poupa energia e desperdício. Em 1975, Coreia e Brasil eram ambos marginais nessa técnica. Depois, os caminhos se separam.
A corrida do lingotamento contínuo, 1975-2005
- Coreia
- Japão
- Brasil
- EUA
Ver os dados
| Ano | Coreia | Japão | Brasil | EUA |
|---|---|---|---|---|
| 1975 | 19,7 | 31,1 | 5,7 | 9,1 |
| 1977 | 31,7 | 40,8 | 17,4 | 12,5 |
| 1980 | 32,4 | 59,5 | 33,4 | 20,3 |
| 1983 | 56,6 | 86,3 | 44,3 | 32,1 |
| 1985 | 63,3 | 91,1 | 43,7 | 44,4 |
| 1987 | 83,5 | 93,3 | 45,5 | 59,8 |
| 1989 | 94,1 | 93,5 | 53,9 | 64,8 |
| 1990 | 96,1 | 93,9 | 58,5 | 67,4 |
| 1991 | 96,4 | 94,4 | 56 | 75,7 |
| 1994 | 97,8 | 96,9 | 59,3 | 88,9 |
| 1995 | 98,2 | 95,8 | 71,6 | 91 |
| 1997 | 98,7 | 96,6 | 73,9 | 94,7 |
| 1998 | 98,6 | 96,9 | 80,4 | 95,5 |
| 1999 | 98,7 | 97,2 | 88,2 | 95,9 |
| 2000 | 98,5 | 97,3 | 90,2 | 96,4 |
| 2001 | 98,6 | 97,5 | 91,6 | 96,9 |
| 2002 | 98,5 | 97,8 | 92,6 | 97,2 |
| 2003 | 98,5 | 97,7 | 91,9 | 97,3 |
| 2004 | 98,3 | 97,8 | 92,7 | 97,2 |
| 2005 | 98,1 | 97,8 | 92,4 | 96,8 |
Em 1990, a Coreia já lingotava continuamente 96,1% de seu aço, tendo passado o Japão. O Brasil estava em 58,5% — abaixo dos Estados Unidos, cuja siderurgia àquela altura era o exemplo clássico de indústria em decadência. O Brasil só chegaria à casa dos 90% na virada dos anos 2000, quando a corrida havia acabado e todo mundo já estava lá.
Um asterisco honesto
Duas ressalvas evitam que essa história vire fábula. A primeira: os cálculos de lucratividade da POSCO são feitos a preços de exportação. Internamente, a empresa vendia mais barato — a literatura que a tese discute registra esses preços subsidiados. A POSCO, campeã de eficiência, era também um mecanismo de barateamento de insumo para o resto da indústria coreana. Ela ganhava fora e distribuía dentro.
A segunda: nenhum desses números de lucro é leitura direta de balanço. São estimativas construídas com premissas padronizadas sobre giro de capital e prazos de pagamento, aplicadas do mesmo modo aos dois países. Isso torna a comparação legítima e a precisão decimal um pouco menos impressionante do que parece.
O epílogo brasileiro
Entre 1991 e 1993, as oito siderúrgicas estatais brasileiras — que respondiam por cerca de 85% da produção nacional de aço — foram vendidas por um total de US$ 8,2 bilhões, dos quais US$ 2,6 bilhões eram transferência de dívida. O deságio médio de mercado sobre o valor dos ativos foi de 49%.
Metade do preço. As usinas que haviam custado o dobro e o sêxtuplo do padrão mundial para serem construídas saíram por metade do que valiam. Alguém pagou caro para erguer, e outro alguém pagou barato para levar. A conta ficou onde as contas ficam.
E o Banco Mundial? O Banco Mundial não errou. Uma usina daquele tamanho era, de fato, grande demais para o mercado coreano — o cálculo estava certo. O que o relatório não considerou foi a hipótese mais simples de todas: a de que a Coreia não pretendia vender para a Coreia.
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Referências
- Nicolas Grinberg. Transformations in the Korean and Brazilian Processes of Capitalist Development between the mid-1950s and the mid-2000s: The Political Economy of Late Industrialisation. London School of Economics and Political Science. 2011 Acessar