A usina que o Banco Mundial disse que não devia existir

Em 1968, a Coreia do Sul decidiu construir uma siderúrgica maior que seu próprio mercado, contra o conselho de todos. Duas décadas depois, a POSCO rodava a 99% da capacidade e as estatais brasileiras davam prejuízo. Uma tese da LSE mostra onde estava a diferença real — e não era competência de gestão.

Sip Dölyn Editorial12 de agosto de 2026Atualizado em 10 de setembro de 20268 min de leitura
Vista da usina siderúrgica da POSCO em Pohang, na Coreia do Sul, com suas chaminés ao longo da costa, vista da praia de Songdo
A usina da POSCO em Pohang, na Coreia do Sul, vista da praia de Songdo em 2014. Imagem ilustrativa: é posterior ao período analisado na matéria. · Narnars0 · CC BY-SA 3.0 Fonte

Em 1966, a Coreia do Sul produzia menos de 40% do aço que consumia. O consumo total do país inteiro era de cerca de meio milhão de toneladas por ano, e não havia ali uma única usina integrada de grande porte — daquelas que entram com minério de um lado e saem com bobinas de aço do outro.

Dois anos depois, o governo coreano decidiu construir uma. E não uma usina do tamanho do mercado coreano: uma usina maior que o mercado coreano.

A reação internacional foi de um consenso raro. Governos estrangeiros e agências internacionais se recusaram a participar do projeto, por considerá-lo inviável em escala. Um estudo do Banco Mundial cravou a lógica: qualquer usina maior do que o mercado doméstico coreano estava condenada ao fracasso. O financiamento não veio. A usina foi construída assim mesmo, em Pohang, e se chamou POSCO.

Se, naquele momento, alguém tivesse de apostar em qual país emergente se tornaria uma potência siderúrgica, a resposta óbvia não era a Coreia. Era o Brasil. O Brasil já tinha três produtores de aço de qualidade em operação, um mercado interno incomparavelmente maior e minério de ferro em casa. Uma década depois, a situação havia se invertido radicalmente.

O placar de 1985

Em 1985, a POSCO operava com 99% de utilização da capacidade instalada. As maiores siderúrgicas japonesas — as mesmas que haviam ensinado o mundo a fazer aço barato — rodavam, em média, a 52%. Parte dessa ociosidade japonesa era consequência direta da entrada da própria POSCO no mercado mundial: a recém-chegada não estava dividindo o bolo, estava tirando fatia dos donos da casa.

No mesmo ano, as duas grandes estatais brasileiras da mesma geração industrial, a Açominas e a CST, operavam com taxa de lucro negativa: -3,5% e -0,83%.

A explicação fácil está pronta na ponta da língua de qualquer um: gestão. O Estado coreano era competente, disciplinado, coeso; o Estado brasileiro era o Estado brasileiro. É uma história confortável porque confirma o que já se pensava antes de olhar os números. O problema é que, quando Nicolas Grinberg foi olhar os números — numa tese de doutorado da London School of Economics que reconstrói cinco décadas de contas de Brasil e Coreia —, a diferença não apareceu onde ela deveria aparecer.

A conta que não fecha

Comece pelo mais elementar: quanto custava, em 1985, produzir uma tonelada de bobina de aço laminada a frio numa usina integrada eficiente de cada país.

O custo de fazer uma tonelada de aço em 1985

  • Japão
  • Coreia
  • Brasil
Ver os dados
InsumoJapãoCoreiaBrasil
Mão de obra632526
Minério de ferro444824
Carvão ou coque525568
Outra energia152427
Diversos112118129
Custo operacional total286270274
Custo de produção de bobina laminada a frio, em dólares por tonelada de produto acabado, numa siderúrgica integrada eficiente. · Elaboração Sip Dölyn com dados de Grinberg, 2011, p. 119.

Leia a última linha de novo. Coreia: 270 dólares. Brasil: 274. A diferença é de menos de 2% — e o Brasil ainda tinha o minério de ferro mais barato da tabela, pela razão óbvia de que o minério estava debaixo dos pés. Do ponto de vista do custo de fazer aço, o Brasil de 1985 era competitivo. Vale registrar que essas contas cobrem o custo operacional: não incluem despesas administrativas e financeiras, nem, em alguns casos, a depreciação. E é exatamente aí, fora da linha de produção, que a diferença estava escondida.

Não era o aço. Era a usina.

A POSCO tinha uma política simples e chata: comprar equipamento pelo menor preço disponível no mundo. As estatais brasileiras compravam equipamentos e serviços de construção de empresas locais, a preços substancialmente inflados. O resultado, medido em custo de construção por mil toneladas de capacidade instalada, é constrangedor:

  • POSCO, em Pohang: US$ 500

  • Açominas: US$ 1.000

  • CST: US$ 3.000

Açominas e CST foram concluídas por volta de 1985, na mesma janela tecnológica. A CST custou seis vezes mais, por unidade de capacidade, do que a usina que o Banco Mundial havia declarado inviável.

E aqui vem o número que reorganiza a história inteira. Grinberg refaz as contas das duas estatais brasileiras substituindo o preço pago pelo capital fixo por preços internacionais — mantendo tudo o mais igual, mesma operação, mesmos trabalhadores, mesmo mercado. As taxas de lucro deixam de ser -3,5% e -0,83% e passam a 16,3% na Açominas e 6,8% na CST.

Ou seja: as siderúrgicas brasileiras não eram empresas ruins produzindo aço caro. Eram empresas viáveis que se tornaram deficitárias por causa do preço que pagaram para existir.

Quem estava pagando a conta, e por quê

Isso não é história de incompetência, e é aqui que a tese fica interessante. Sobrepreço em equipamento nacional não é acidente administrativo: é transferência. Cada dólar a mais que a CST pagou por uma peça brasileira foi um dólar que entrou no caixa de um fabricante brasileiro de bens de capital que, aos preços internacionais, não teria vendido nada.

O argumento central de Grinberg é que a industrialização brasileira do pós-guerra funcionava assim de forma sistemática — e podia funcionar assim porque havia de onde tirar. O país gerava uma riqueza extraordinária que não vinha da eficiência da indústria, mas do controle de recursos naturais: terra agrícola e minério vendidos a preços internacionais. Os economistas chamam isso de renda da terra. Câmbio sobrevalorizado, tarifas e crédito público subsidiado eram os canos por onde parte dessa riqueza escorria do setor primário para o industrial.

O efeito é uma indústria que consegue ser lucrativa produzindo em escala pequena, para o mercado interno, sem nunca precisar ganhar de ninguém lá fora. A Coreia não tinha esse colchão. Não havia renda da terra abundante para amortecer erro de preço. Comprar equipamento caro não era uma escolha política ruim: era, para o capital coreano, simplesmente inviável.

O Brasil não deixou de competir porque fracassou. Ele não competiu porque não precisava.
Síntese do argumento de Nicolas Grinberg

O trabalho barato que não era tão barato assim

Volte à tabela de custos de 1985 e olhe a linha da mão de obra: 63 dólares por tonelada no Japão, 25 na Coreia, 26 no Brasil. Empatados, coreanos e brasileiros. Só que o dólar mente.

Quando se corrige o valor brasileiro pelo poder de compra real — isto é, quando se pergunta o que aquele salário de fato comprava no Brasil, em vez de aceitar o que a taxa de câmbio dizia —, o custo unitário de mão de obra brasileiro sobe de 26,10 para 41,89 dólares por tonelada. O coreano, no mesmo cálculo, era 23,37. O trabalhador brasileiro parecia barato porque o câmbio afirmava que ele era barato. O trabalhador coreano era barato.

O quanto isso importava para a POSCO tem medida. Grinberg simula o que aconteceria se a empresa pagasse salários japoneses em 1985: sua taxa de lucro, calculada a preços de exportação, cairia para cerca de -2,3%. E se, além de pagar como o Japão, seus trabalhadores fossem tão produtivos quanto os japoneses? O lucro voltaria, mas para cerca de 9%. A vantagem coreana não estava em produtividade superior. Estava em custo do trabalho — com produtividade inferior.

A corrida que ninguém viu

Havia ainda uma disputa técnica silenciosa acontecendo. O lingotamento contínuo é uma tecnologia que molda o aço líquido diretamente em formas semiacabadas, sem passar pela etapa antiga de resfriar em lingotes e reaquecer. Elimina uma fase inteira da produção, poupa energia e desperdício. Em 1975, Coreia e Brasil eram ambos marginais nessa técnica. Depois, os caminhos se separam.

A corrida do lingotamento contínuo, 1975-2005

CoreiaJapãoBrasilEUA
  • Coreia
  • Japão
  • Brasil
  • EUA
Ver os dados
AnoCoreiaJapãoBrasilEUA
197519,731,15,79,1
197731,740,817,412,5
198032,459,533,420,3
198356,686,344,332,1
198563,391,143,744,4
198783,593,345,559,8
198994,193,553,964,8
199096,193,958,567,4
199196,494,45675,7
199497,896,959,388,9
199598,295,871,691
199798,796,673,994,7
199898,696,980,495,5
199998,797,288,295,9
200098,597,390,296,4
200198,697,591,696,9
200298,597,892,697,2
200398,597,791,997,3
200498,397,892,797,2
200598,197,892,496,8
Percentual da produção de aço bruto processada por lingotamento contínuo. · Elaboração Sip Dölyn com dados de Grinberg, 2011, p. 121.

Em 1990, a Coreia já lingotava continuamente 96,1% de seu aço, tendo passado o Japão. O Brasil estava em 58,5% — abaixo dos Estados Unidos, cuja siderurgia àquela altura era o exemplo clássico de indústria em decadência. O Brasil só chegaria à casa dos 90% na virada dos anos 2000, quando a corrida havia acabado e todo mundo já estava lá.

Um asterisco honesto

Duas ressalvas evitam que essa história vire fábula. A primeira: os cálculos de lucratividade da POSCO são feitos a preços de exportação. Internamente, a empresa vendia mais barato — a literatura que a tese discute registra esses preços subsidiados. A POSCO, campeã de eficiência, era também um mecanismo de barateamento de insumo para o resto da indústria coreana. Ela ganhava fora e distribuía dentro.

A segunda: nenhum desses números de lucro é leitura direta de balanço. São estimativas construídas com premissas padronizadas sobre giro de capital e prazos de pagamento, aplicadas do mesmo modo aos dois países. Isso torna a comparação legítima e a precisão decimal um pouco menos impressionante do que parece.

O epílogo brasileiro

Entre 1991 e 1993, as oito siderúrgicas estatais brasileiras — que respondiam por cerca de 85% da produção nacional de aço — foram vendidas por um total de US$ 8,2 bilhões, dos quais US$ 2,6 bilhões eram transferência de dívida. O deságio médio de mercado sobre o valor dos ativos foi de 49%.

Metade do preço. As usinas que haviam custado o dobro e o sêxtuplo do padrão mundial para serem construídas saíram por metade do que valiam. Alguém pagou caro para erguer, e outro alguém pagou barato para levar. A conta ficou onde as contas ficam.

E o Banco Mundial? O Banco Mundial não errou. Uma usina daquele tamanho era, de fato, grande demais para o mercado coreano — o cálculo estava certo. O que o relatório não considerou foi a hipótese mais simples de todas: a de que a Coreia não pretendia vender para a Coreia.

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Referências

  1. Nicolas Grinberg. Transformations in the Korean and Brazilian Processes of Capitalist Development between the mid-1950s and the mid-2000s: The Political Economy of Late Industrialisation. London School of Economics and Political Science. 2011 Acessar
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