O Brasil ganhou a corrida do lingotamento. E não está na corrida seguinte
Em 1990 o Brasil lingotava 58% do seu aço de forma contínua, contra 96% da Coreia do Sul. Hoje lingota 99,6% — acima da Coreia. A defasagem fechou e inverteu. Mas quando se procura o Brasil na tabela da tecnologia que define a fronteira industrial de agora, acontece uma coisa diferente de estar atrás: ele não está na tabela.

Toda corrida tecnológica tem um número que a resume. Nos anos 1980, na siderurgia, esse número era o percentual do aço bruto processado por lingotamento contínuo — a técnica que elimina uma etapa inteira da produção, economiza energia e melhora o rendimento do metal.
A matéria que deu origem a esta investigação usou esse número para mostrar quem estava correndo: a Coreia do Sul saiu de cerca de 20% em 1975 para 96% em 1990. O Brasil, que largou junto, chegou a 58% no mesmo ano.
Trinta e cinco anos depois, vale conferir o placar.
A defasagem não fechou. Ela inverteu
| País | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|
| Brasil | 98,2% | 99,5% | 99,6% |
| Japão | 99,1% | 99,1% | 99,1% |
| China | 98,4% | 98,4% | 98,3% |
| Coreia do Sul | 98,1% | 98,4% | 98,2% |
| Total dos países da tabela | 97,5% | 97,5% | 97,4% |
O Brasil lingota 99,6% do seu aço bruto. A Coreia do Sul, 98,2%. O país que estava 38 pontos percentuais atrás em 1990 está hoje um ponto e meio à frente.
Antes de virar história de superação, convém ler o que esse número significa de verdade. Lingotamento contínuo virou o padrão do mundo: a média dos países que produzem praticamente todo o aço do planeta é 97,4%. Chegar a 99,6% não é liderar uma fronteira. É ter terminado de atravessar uma ponte que todos atravessaram.
O que o dado prova é mais modesto e ainda assim relevante: a indústria brasileira é capaz de fechar uma defasagem tecnológica quando ela se torna condição de existir no mercado. Não é um problema de capacidade. Foi um problema de prazo.
Qual é o lingotamento contínuo de agora
Se a pergunta é onde está a fronteira hoje, a candidata mais medida é a densidade de robôs industriais: quantos robôs em operação existem por 10 mil trabalhadores da indústria de transformação. A Federação Internacional de Robótica (IFR) publica a série por país.
Robôs industriais em operação por 10 mil trabalhadores da indústria (2024)
Ver os dados
| País | Robôs por 10 mil trabalhadores |
|---|---|
| Coreia do Sul | 1.220 |
| Singapura | 818 |
| Alemanha | 449 |
| Japão | 446 |
| Estados Unidos | 307 |
| Canadá | 241 |
| China | 166 |
| Média mundial | 132 |
| México | 62 |
A Coreia do Sul lidera com 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores — mais de nove vezes a média mundial, de 132. É o mesmo país que, na matéria de origem, aparecia comprando equipamento a preço internacional enquanto o Brasil pagava sobrepreço por máquina nacional.
E aqui esta matéria encontra um limite
A pergunta óbvia é: quantos robôs por 10 mil trabalhadores tem a indústria brasileira?
Não foi possível responder com fonte verificável. O Brasil não aparece na tabela por país do comunicado da IFR — que lista doze países e três médias regionais —, não aparece no conjunto de dados que o Our World in Data publica a partir da mesma fonte (41 países), e o relatório completo World Robotics é pago. O único país latino-americano na tabela é o México, com 62.
Esta matéria poderia ter estimado o número. Optou por não fazer isso. Um número inventado sobre automação industrial seria pior que a ausência dele, porque circularia com a aparência de medida.
A ausência, porém, é ela mesma um dado — e é o achado desta investigação. A série da IFR é construída com informação das associações nacionais de robótica e dos fabricantes. Estar fora da tabela por país significa que o Brasil não é grande o bastante no mercado global de robôs industriais para figurar entre os doze relatados, nem tem quem o reporte com a regularidade que o ranking exige. Em 1975, quando a Coreia lingotava 20% do seu aço, ela estava na tabela. Atrás, mas dentro.
A diferença entre estar atrás numa tabela e não estar na tabela é a diferença entre perder uma corrida e não ter entrado nela.
O que muda na leitura
A matéria de origem mostrava um Brasil que chegava tarde à tecnologia porque não precisava chegar na hora: com o mercado interno garantido e o lucro subsidiado por outra fonte, correr era opcional. O lingotamento contínuo é a prova de que, quando deixou de ser opcional, o país correu — e passou.
A leitura que esta investigação propõe, e que é da Sip Dölyn e não da tese, é que o padrão se repete com um atraso embutido de uma geração. O Brasil termina as corridas anteriores com competência. O problema é que a fronteira já mudou de lugar quando ele chega — e no momento em que uma tecnologia se torna condição de existir, quem começou vinte anos antes não está mais competindo pelo mesmo prêmio.
Publicar a densidade brasileira de robôs, com metodologia comparável à da IFR, custaria a uma entidade setorial menos que um estudo de conjuntura. Enquanto isso não existir, a única coisa que se pode dizer com honestidade sobre a posição do Brasil na fronteira industrial de hoje é que ninguém está medindo.
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De onde nasceu esta investigação
Esta matéria surgiu de uma pergunta levantada durante a produção de A usina que o Banco Mundial disse que não devia existir.
Referências
- World Steel Association (worldsteel). World Steel in Figures 2026 — Continuously-cast steel output, 2023 to 2025. World Steel Association. 2026 Acessar
- International Federation of Robotics (IFR). World Robotics 2025 — Robot density in the manufacturing industry. International Federation of Robotics. 2026 Acessar
- Our World in Data. Industrial robots in operation per 1,000 employees (a partir de dados da IFR). Our World in Data / University of Oxford. 2025 Acessar