O Brasil ganhou a corrida do lingotamento. E não está na corrida seguinte

Em 1990 o Brasil lingotava 58% do seu aço de forma contínua, contra 96% da Coreia do Sul. Hoje lingota 99,6% — acima da Coreia. A defasagem fechou e inverteu. Mas quando se procura o Brasil na tabela da tecnologia que define a fronteira industrial de agora, acontece uma coisa diferente de estar atrás: ele não está na tabela.

Sip Dölyn Editorial28 de agosto de 20265 min de leitura
Braços robóticos industriais alaranjados operando sobre uma esteira de paletização numa fábrica
Robôs industriais numa linha de paletização, em 2005. Imagem ilustrativa: a fábrica é alemã e não pertence à siderurgia — a matéria não dispõe de dado público sobre a densidade de robôs no Brasil. · KUKA Roboter GmbH, Bachmann · Public domain Fonte

Toda corrida tecnológica tem um número que a resume. Nos anos 1980, na siderurgia, esse número era o percentual do aço bruto processado por lingotamento contínuo — a técnica que elimina uma etapa inteira da produção, economiza energia e melhora o rendimento do metal.

A matéria que deu origem a esta investigação usou esse número para mostrar quem estava correndo: a Coreia do Sul saiu de cerca de 20% em 1975 para 96% em 1990. O Brasil, que largou junto, chegou a 58% no mesmo ano.

Trinta e cinco anos depois, vale conferir o placar.

A defasagem não fechou. Ela inverteu

País202320242025
Brasil98,2%99,5%99,6%
Japão99,1%99,1%99,1%
China98,4%98,4%98,3%
Coreia do Sul98,1%98,4%98,2%
Total dos países da tabela97,5%97,5%97,4%
Percentual do aço bruto processado por lingotamento contínuo. Os países da tabela original respondem por aproximadamente 100% da produção mundial de aço bruto. · Elaboração Sip Dölyn com dados de World Steel in Figures 2026 (World Steel Association). Fonte

O Brasil lingota 99,6% do seu aço bruto. A Coreia do Sul, 98,2%. O país que estava 38 pontos percentuais atrás em 1990 está hoje um ponto e meio à frente.

Antes de virar história de superação, convém ler o que esse número significa de verdade. Lingotamento contínuo virou o padrão do mundo: a média dos países que produzem praticamente todo o aço do planeta é 97,4%. Chegar a 99,6% não é liderar uma fronteira. É ter terminado de atravessar uma ponte que todos atravessaram.

O que o dado prova é mais modesto e ainda assim relevante: a indústria brasileira é capaz de fechar uma defasagem tecnológica quando ela se torna condição de existir no mercado. Não é um problema de capacidade. Foi um problema de prazo.

Qual é o lingotamento contínuo de agora

Se a pergunta é onde está a fronteira hoje, a candidata mais medida é a densidade de robôs industriais: quantos robôs em operação existem por 10 mil trabalhadores da indústria de transformação. A Federação Internacional de Robótica (IFR) publica a série por país.

Robôs industriais em operação por 10 mil trabalhadores da indústria (2024)

Ver os dados
PaísRobôs por 10 mil trabalhadores
Coreia do Sul1.220
Singapura818
Alemanha449
Japão446
Estados Unidos307
Canadá241
China166
Média mundial132
México62
A Coreia do Sul tem a maior densidade do mundo. O México é o único país latino-americano na tabela por país divulgada pela IFR. O Brasil não consta. · Elaboração Sip Dölyn com dados de IFR — World Robotics 2025. Fonte

A Coreia do Sul lidera com 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores — mais de nove vezes a média mundial, de 132. É o mesmo país que, na matéria de origem, aparecia comprando equipamento a preço internacional enquanto o Brasil pagava sobrepreço por máquina nacional.

E aqui esta matéria encontra um limite

A pergunta óbvia é: quantos robôs por 10 mil trabalhadores tem a indústria brasileira?

Não foi possível responder com fonte verificável. O Brasil não aparece na tabela por país do comunicado da IFR — que lista doze países e três médias regionais —, não aparece no conjunto de dados que o Our World in Data publica a partir da mesma fonte (41 países), e o relatório completo World Robotics é pago. O único país latino-americano na tabela é o México, com 62.

Esta matéria poderia ter estimado o número. Optou por não fazer isso. Um número inventado sobre automação industrial seria pior que a ausência dele, porque circularia com a aparência de medida.

A ausência, porém, é ela mesma um dado — e é o achado desta investigação. A série da IFR é construída com informação das associações nacionais de robótica e dos fabricantes. Estar fora da tabela por país significa que o Brasil não é grande o bastante no mercado global de robôs industriais para figurar entre os doze relatados, nem tem quem o reporte com a regularidade que o ranking exige. Em 1975, quando a Coreia lingotava 20% do seu aço, ela estava na tabela. Atrás, mas dentro.

A diferença entre estar atrás numa tabela e não estar na tabela é a diferença entre perder uma corrida e não ter entrado nela.
Sip Dölyn Editorial

O que muda na leitura

A matéria de origem mostrava um Brasil que chegava tarde à tecnologia porque não precisava chegar na hora: com o mercado interno garantido e o lucro subsidiado por outra fonte, correr era opcional. O lingotamento contínuo é a prova de que, quando deixou de ser opcional, o país correu — e passou.

A leitura que esta investigação propõe, e que é da Sip Dölyn e não da tese, é que o padrão se repete com um atraso embutido de uma geração. O Brasil termina as corridas anteriores com competência. O problema é que a fronteira já mudou de lugar quando ele chega — e no momento em que uma tecnologia se torna condição de existir, quem começou vinte anos antes não está mais competindo pelo mesmo prêmio.

Publicar a densidade brasileira de robôs, com metodologia comparável à da IFR, custaria a uma entidade setorial menos que um estudo de conjuntura. Enquanto isso não existir, a única coisa que se pode dizer com honestidade sobre a posição do Brasil na fronteira industrial de hoje é que ninguém está medindo.

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  • tecnologia industrial

De onde nasceu esta investigação

Esta matéria surgiu de uma pergunta levantada durante a produção de A usina que o Banco Mundial disse que não devia existir.

Referências

  1. World Steel Association (worldsteel). World Steel in Figures 2026 — Continuously-cast steel output, 2023 to 2025. World Steel Association. 2026 Acessar
  2. International Federation of Robotics (IFR). World Robotics 2025 — Robot density in the manufacturing industry. International Federation of Robotics. 2026 Acessar
  3. Our World in Data. Industrial robots in operation per 1,000 employees (a partir de dados da IFR). Our World in Data / University of Oxford. 2025 Acessar
O Brasil fechou a defasagem do aço e sumiu da corrida seguinte