O colchão voltou — e a indústria não está mais embaixo dele

Em 2025 o Brasil exportou o recorde de US$ 348,7 bilhões, com volumes recordes de minério, soja e petróleo ao mesmo tempo. No mesmo país, a indústria de transformação responde por menos de 11% do PIB. Uma tese da LSE explicou como a riqueza do solo financiava a fábrica brasileira. Esta investigação pergunta o que aconteceu com o encanamento entre as duas.

Sip Dölyn Editorial27 de agosto de 20265 min de leitura
Imagem de satélite de Alto Taquari, no sudeste do Mato Grosso, com lotes agrícolas geométricos em tons de verde e laranja recortados sobre as chapadas do cerrado
Lotes de soja e algodão em Alto Taquari, no sudeste do Mato Grosso, em imagem de satélite de fevereiro de 2019. Cerca de 80% da área é soja. · Coordenação-Geral de Observação da Terra/INPE · CC BY-SA 2.0 Fonte

Em 2025 o Brasil vendeu ao mundo US$ 348,7 bilhões — o maior valor de exportações da sua história, US$ 9 bilhões acima do recorde anterior. Três produtos bateram recorde de volume no mesmo ano: 416 milhões de toneladas de minério de ferro, 108 milhões de toneladas de soja e 98 milhões de toneladas de petróleo.

No mesmo país, no mesmo ano, a indústria de transformação respondia por menos de 11% do PIB — contra 13,6% uma década antes.

Os dois fatos convivem sem se tocar, e é justamente isso que precisa de explicação. Porque houve meio século em que eles eram a mesma coisa.

O que uma tese da LSE havia medido

A matéria que deu origem a esta investigação contou o argumento de Nicolas Grinberg, da London School of Economics: a indústria brasileira foi lucrativa por meio século sem nunca ser competitiva, porque uma parte do seu lucro não vinha da fábrica. Vinha do solo.

O mecanismo tinha peças concretas: câmbio sobrevalorizado, tarifas de importação e crédito subsidiado. Juntas, elas transferiam para a indústria uma fatia da riqueza que a terra agrícola e as minas geravam e que o mundo pagava. Na conta de Grinberg, entre 1955 e 1980 cerca de um terço dos lucros da indústria brasileira vinha desse excedente — de gente que não era dona de terra nenhuma. No período seguinte, essa fatia caiu para 6,5%.

A tese explica a queda pelo encolhimento do próprio colchão. E é aqui que os dados dela terminam: meados dos anos 2000.

O colchão não encolheu. Ele engordou

Se a explicação fosse só o tamanho do excedente, os vinte anos seguintes deveriam ter devolvido a fatia à indústria. Não é o que os números da balança comercial mostram.

ProdutoVolume exportado em 2025Situação
Minério de ferro416 milhões de trecorde histórico
Soja108 milhões de trecorde histórico
Petróleo98 milhões de trecorde histórico
Os três produtos bateram recorde de volume no mesmo ano. O total exportado pelo país em 2025 foi de US$ 348,7 bilhões, também recorde. · Elaboração Sip Dölyn com dados do MDIC/Comex Stat. Fonte

A riqueza que Grinberg descreve como origem do subsídio não está menor. Está na maior escala já registrada. E a indústria de transformação, que era o destino daquele subsídio, está no menor patamar de participação no PIB em décadas: 10,7% em 2023 e 10,8% em 2024, segundo as Contas Nacionais do IBGE, contra 13,6% em 2013.

O setor também não está em colapso — cresceu 3,8% em 2024, depois de recuar 0,5% em 2022 e 1,3% em 2023, e fechou 2025 praticamente de lado. O que ele não está é acompanhando o tamanho da economia. Nem, muito menos, o tamanho do que o país vende para fora.

A hipótese: o encanamento, não a fonte

A leitura que esta investigação propõe — e ela é da Sip Dölyn, não da tese — é que a pergunta certa não é sobre o tamanho do excedente. É sobre o encanamento.

O mecanismo que Grinberg descreve não era automático. Ele dependia de três instituições específicas que faziam a riqueza do solo passar pela fábrica antes de virar lucro: um câmbio administrado que barateava a máquina importada e encarecia a commodity exportada; uma parede tarifária que garantia o mercado interno; e crédito dirigido a juros abaixo do mercado.

  • O câmbio administrado deu lugar ao câmbio flutuante em 1999.

  • A parede tarifária caiu na abertura comercial do início dos anos 1990.

  • O crédito dirigido perdeu escala relativa e passou a conviver com uma taxa básica alta.

Nenhuma dessas mudanças foi um erro de cálculo: todas foram decisões deliberadas, com razões próprias, e várias delas resolveram problemas reais. Mas o efeito conjunto, sobre este mecanismo específico, é o que interessa aqui. O excedente do solo continua sendo gerado e continua sendo vendido. Ele só não passa mais por dentro da indústria no caminho.

O Brasil passou décadas tentando industrializar para escapar da dependência de commodities, financiando essa industrialização com dinheiro de commodities.
Da matéria que originou esta investigação

Se essa leitura estiver certa, ela inverte uma parte do debate. A discussão brasileira sobre desindustrialização costuma girar em torno de doença holandesa — a ideia de que o boom de commodities valoriza a moeda e mata a indústria pelo câmbio. O que o mecanismo de Grinberg sugere é algo diferente e mais desconfortável: o boom de commodities já sustentou a indústria brasileira, e por muito tempo. O que mudou não foi o sinal do boom. Foi o desmonte da tubulação que ligava um ao outro.

O que esta matéria não pode afirmar

Um aviso que vale mais que uma conclusão bonita: esta investigação não refez o cálculo de Grinberg para 2011-2025. Refazer exigiria a metodologia dele, incluindo a escolha de quando o câmbio brasileiro estaria "sem distorção" — uma premissa que o próprio autor discute, e sobre a qual ele avisa que provavelmente subestimou a magnitude do que mediu.

O que está aqui é outra coisa, e mais modesta: duas séries oficiais colocadas lado a lado, e a pergunta que elas produzem quando ninguém as separa. A fatia do excedente primário no lucro industrial brasileiro hoje é um número que ninguém publicou. Deveria existir.

Enquanto ele não existir, fica o retrato: um país que nunca vendeu tanto do que tira do chão, e uma indústria que nunca pesou tão pouco. Meio século atrás, essas duas frases descreviam a mesma engrenagem. Hoje descrevem dois países que dividem o mesmo mapa.

  • indústria brasileira
  • desindustrialização
  • renda da terra
  • commodities
  • exportações
  • política industrial
  • brasil

De onde nasceu esta investigação

Esta matéria surgiu de uma pergunta levantada durante a produção de O país que lucrava sem precisar competir.

Referências

  1. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Exportações brasileiras alcançam US$ 349 bi em 2025 e batem recorde histórico. Governo Federal / Comex Stat. 2026 Acessar
  2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sistema de Contas Nacionais: participação da indústria de transformação no valor adicionado. IBGE. 2025 Acessar
  3. Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). Indústria de transformação amplia fatia no PIB (análise das Contas Nacionais do IBGE). IEDI. 2025 Acessar