O colchão voltou — e a indústria não está mais embaixo dele
Em 2025 o Brasil exportou o recorde de US$ 348,7 bilhões, com volumes recordes de minério, soja e petróleo ao mesmo tempo. No mesmo país, a indústria de transformação responde por menos de 11% do PIB. Uma tese da LSE explicou como a riqueza do solo financiava a fábrica brasileira. Esta investigação pergunta o que aconteceu com o encanamento entre as duas.

Em 2025 o Brasil vendeu ao mundo US$ 348,7 bilhões — o maior valor de exportações da sua história, US$ 9 bilhões acima do recorde anterior. Três produtos bateram recorde de volume no mesmo ano: 416 milhões de toneladas de minério de ferro, 108 milhões de toneladas de soja e 98 milhões de toneladas de petróleo.
No mesmo país, no mesmo ano, a indústria de transformação respondia por menos de 11% do PIB — contra 13,6% uma década antes.
Os dois fatos convivem sem se tocar, e é justamente isso que precisa de explicação. Porque houve meio século em que eles eram a mesma coisa.
O que uma tese da LSE havia medido
A matéria que deu origem a esta investigação contou o argumento de Nicolas Grinberg, da London School of Economics: a indústria brasileira foi lucrativa por meio século sem nunca ser competitiva, porque uma parte do seu lucro não vinha da fábrica. Vinha do solo.
O mecanismo tinha peças concretas: câmbio sobrevalorizado, tarifas de importação e crédito subsidiado. Juntas, elas transferiam para a indústria uma fatia da riqueza que a terra agrícola e as minas geravam e que o mundo pagava. Na conta de Grinberg, entre 1955 e 1980 cerca de um terço dos lucros da indústria brasileira vinha desse excedente — de gente que não era dona de terra nenhuma. No período seguinte, essa fatia caiu para 6,5%.
A tese explica a queda pelo encolhimento do próprio colchão. E é aqui que os dados dela terminam: meados dos anos 2000.
O colchão não encolheu. Ele engordou
Se a explicação fosse só o tamanho do excedente, os vinte anos seguintes deveriam ter devolvido a fatia à indústria. Não é o que os números da balança comercial mostram.
| Produto | Volume exportado em 2025 | Situação |
|---|---|---|
| Minério de ferro | 416 milhões de t | recorde histórico |
| Soja | 108 milhões de t | recorde histórico |
| Petróleo | 98 milhões de t | recorde histórico |
A riqueza que Grinberg descreve como origem do subsídio não está menor. Está na maior escala já registrada. E a indústria de transformação, que era o destino daquele subsídio, está no menor patamar de participação no PIB em décadas: 10,7% em 2023 e 10,8% em 2024, segundo as Contas Nacionais do IBGE, contra 13,6% em 2013.
O setor também não está em colapso — cresceu 3,8% em 2024, depois de recuar 0,5% em 2022 e 1,3% em 2023, e fechou 2025 praticamente de lado. O que ele não está é acompanhando o tamanho da economia. Nem, muito menos, o tamanho do que o país vende para fora.
A hipótese: o encanamento, não a fonte
A leitura que esta investigação propõe — e ela é da Sip Dölyn, não da tese — é que a pergunta certa não é sobre o tamanho do excedente. É sobre o encanamento.
O mecanismo que Grinberg descreve não era automático. Ele dependia de três instituições específicas que faziam a riqueza do solo passar pela fábrica antes de virar lucro: um câmbio administrado que barateava a máquina importada e encarecia a commodity exportada; uma parede tarifária que garantia o mercado interno; e crédito dirigido a juros abaixo do mercado.
O câmbio administrado deu lugar ao câmbio flutuante em 1999.
A parede tarifária caiu na abertura comercial do início dos anos 1990.
O crédito dirigido perdeu escala relativa e passou a conviver com uma taxa básica alta.
Nenhuma dessas mudanças foi um erro de cálculo: todas foram decisões deliberadas, com razões próprias, e várias delas resolveram problemas reais. Mas o efeito conjunto, sobre este mecanismo específico, é o que interessa aqui. O excedente do solo continua sendo gerado e continua sendo vendido. Ele só não passa mais por dentro da indústria no caminho.
O Brasil passou décadas tentando industrializar para escapar da dependência de commodities, financiando essa industrialização com dinheiro de commodities.
Se essa leitura estiver certa, ela inverte uma parte do debate. A discussão brasileira sobre desindustrialização costuma girar em torno de doença holandesa — a ideia de que o boom de commodities valoriza a moeda e mata a indústria pelo câmbio. O que o mecanismo de Grinberg sugere é algo diferente e mais desconfortável: o boom de commodities já sustentou a indústria brasileira, e por muito tempo. O que mudou não foi o sinal do boom. Foi o desmonte da tubulação que ligava um ao outro.
O que esta matéria não pode afirmar
Um aviso que vale mais que uma conclusão bonita: esta investigação não refez o cálculo de Grinberg para 2011-2025. Refazer exigiria a metodologia dele, incluindo a escolha de quando o câmbio brasileiro estaria "sem distorção" — uma premissa que o próprio autor discute, e sobre a qual ele avisa que provavelmente subestimou a magnitude do que mediu.
O que está aqui é outra coisa, e mais modesta: duas séries oficiais colocadas lado a lado, e a pergunta que elas produzem quando ninguém as separa. A fatia do excedente primário no lucro industrial brasileiro hoje é um número que ninguém publicou. Deveria existir.
Enquanto ele não existir, fica o retrato: um país que nunca vendeu tanto do que tira do chão, e uma indústria que nunca pesou tão pouco. Meio século atrás, essas duas frases descreviam a mesma engrenagem. Hoje descrevem dois países que dividem o mesmo mapa.
- indústria brasileira
- desindustrialização
- renda da terra
- commodities
- exportações
- política industrial
- brasil
De onde nasceu esta investigação
Esta matéria surgiu de uma pergunta levantada durante a produção de O país que lucrava sem precisar competir.
Referências
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Exportações brasileiras alcançam US$ 349 bi em 2025 e batem recorde histórico. Governo Federal / Comex Stat. 2026 Acessar
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Sistema de Contas Nacionais: participação da indústria de transformação no valor adicionado. IBGE. 2025 Acessar
- Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). Indústria de transformação amplia fatia no PIB (análise das Contas Nacionais do IBGE). IEDI. 2025 Acessar