O número em dólar que mente: como ler "custo do trabalho"
Entre 2012 e 2025, o salário mínimo brasileiro subiu 144% em reais e caiu 15% em dólares. É o mesmo salário, no mesmo país, no mesmo período — e duas conclusões opostas sobre o custo do trabalho no Brasil. Esta investigação da Sip Dölyn recalcula a conta a partir do Banco Central e mostra por que a moeda em que se mede decide a resposta.

Em 1985, produzir uma tonelada de bobina de aço laminada a frio custava, só em mão de obra, US$ 63 no Japão, US$ 25 na Coreia do Sul e US$ 26 no Brasil. Olhando essa linha, um analista concluiria que o trabalho brasileiro era quase tão barato quanto o coreano.
A matéria que deu origem a esta investigação mostra que a conclusão estava errada — e que o erro não era no dado. Era na moeda. O trabalhador brasileiro custava US$ 26 porque o câmbio dizia que sim. Ajustado pelo que aquele salário comprava de fato, o Brasil era mais caro que a Coreia.
Quarenta anos depois, a armadilha continua montada. E dá para demonstrar isso com uma conta que qualquer pessoa pode refazer.
A mesma tabela, duas verdades
Tome o salário mínimo federal brasileiro — o piso legal, o número menos sujeito a controvérsia metodológica que existe no mercado de trabalho do país. E converta pelo câmbio médio de cada ano, usando a série do Banco Central.
| Ano | Salário mínimo (R$) | Câmbio médio anual (R$/US$) | Salário mínimo (US$) |
|---|---|---|---|
| 2012 | 622 | 1,95 | 318 |
| 2015 | 788 | 3,33 | 237 |
| 2020 | 1.045 | 5,16 | 203 |
| 2025 | 1.518 | 5,59 | 272 |
Entre 2012 e 2025, o salário mínimo brasileiro subiu 144% em reais e caiu 15% em dólares. O câmbio, no mesmo intervalo, subiu 186% — de R$ 1,95 para R$ 5,59.
As duas frases seguintes são verdadeiras ao mesmo tempo, sobre o mesmo trabalhador:
O empregador brasileiro paga hoje 2,4 vezes o que pagava em 2012, na moeda em que ele efetivamente paga.
O analista estrangeiro que compara em dólares vê o trabalho brasileiro 15% mais barato do que em 2012.
Nenhuma das duas é mentira. As duas medem coisas diferentes, e é por isso que a mesma pauta sustenta argumentos opostos sem que ninguém precise falsificar um número.
Por que isso não é um detalhe técnico
A expressão "custo Brasil" circula no debate público como se descrevesse uma grandeza única. Não descreve. Custo do trabalho medido em dólar responde a uma pergunta: quanto custa produzir aqui para quem vende lá fora e recebe em dólar. Medido em poder de compra doméstico, responde a outra: quanto do produto do país é preciso entregar para contratar uma hora de trabalho.
Uma desvalorização cambial melhora a primeira e não melhora a segunda. Ela não torna o trabalhador mais produtivo, não reduz o custo do insumo importado e não muda uma linha do processo de produção. Ela só reescreve o preço da hora de trabalho na moeda de quem compra.
O brasileiro custava isso porque o câmbio dizia que sim, não porque o trabalho fosse barato em poder de compra real.
É aqui que a lição de 1985 fica desconfortável. Na comparação da matéria de origem, o Brasil tinha o custo de mão de obra por tonelada praticamente empatado com o da Coreia e o custo operacional total também — US$ 274 contra US$ 270. E ainda assim não exportava. Barateza medida em dólar não produziu competitividade, porque não era barateza: era câmbio.
Como ler um número desses
Três perguntas que separam medida de artefato, e que servem para qualquer comparação internacional de custo:
Em que moeda o número foi construído, e qual era o câmbio na data? Um custo em dólar de um ano de câmbio atípico não se compara com outro ano.
A série foi ajustada por paridade de poder de compra? Se não foi, ela mede preço relativo entre moedas, não custo real.
O denominador é produto ou hora? Custo por hora e custo por unidade produzida se movem em direções opostas quando a produtividade muda.
Nenhuma dessas perguntas exige econometria. Exige ler a nota de rodapé — que é onde ela costuma estar, e é onde ninguém olha.
O que esta matéria não afirma
O salário mínimo é um piso legal, não a média do custo do trabalho na indústria: encargos, rotatividade, produtividade e composição setorial ficam de fora. A tabela acima serve para demonstrar o efeito da moeda de medida com o dado mais limpo disponível — não para estimar o custo unitário do trabalho brasileiro.
E a matéria não conclui que o trabalho no Brasil seja caro ou barato. Conclui que quem responde a essa pergunta sem dizer em que moeda mediu não respondeu nada — e que, quarenta anos depois de uma tese medir exatamente isso numa planilha de siderurgia, o debate brasileiro sobre competitividade segue citando números em dólar como se fossem fatos sobre o trabalho, quando muitas vezes são fatos sobre o dólar.
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De onde nasceu esta investigação
Esta matéria surgiu de uma pergunta levantada durante a produção de A usina que o Banco Mundial disse que não devia existir.
Referências
- Banco Central do Brasil. Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS), série 3698 — câmbio livre, dólar americano (venda), média do período. Banco Central do Brasil. 2026 Acessar
- Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Nota Técnica: reajuste e política de valorização do salário mínimo, 2003 a 2025. DIEESE. 2025 Acessar