Bioma9 capítulos14 fontes

Biomas brasileiros · uma travessia

Cerrado

Antes de alimentar o país, ele ensina a olhar devagar.

Não comece pelo número. Comece pelo horizonte — e pela água que, muitas vezes, está onde os olhos ainda não alcançam.

Uma paisagem de aproximação.Não existe um Cerrado só. Existem campos abertos, matas, chapadas, córregos, veredas, quintais, roças, cidades e caminhos que mudam junto com a chuva e a estiagem.

I · Um bioma em muitas formas

O aberto também é cheio de vida.

À primeira vista, o Cerrado parece economia de gestos: árvores baixas, capim, chão exposto, céu. Mas essa impressão engana. A Embrapa reconhece formações florestais, savânicas e campestres, desdobradas em dezenas de fisionomias. Cada uma combina solo, umidade, fogo, sombra e espécies de um modo próprio.1

É por isso que uma caminhada pode passar de um campo limpo para um cerrado mais denso, encontrar uma mata acompanhando o curso de um rio e, de repente, chegar a uma vereda. O bioma não é vazio entre duas florestas. Ele tem forma própria.

O ICMBio reúne estimativas de milhares de espécies de plantas e de grande diversidade de aves, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos. São números vivos: mudam com a taxonomia, a pesquisa e o recorte de cada levantamento.2

Dez cenas para olhar o Cerrado antes de explicá-lo.

Uma travessia em imagens

II · A água que atravessa

A vereda não é enfeite de paisagem.

Ela é uma conversa entre solo, chuva, buriti, capim, nascente e curso d’água.

O Cerrado abriga nascentes que alimentam grandes sistemas hidrográficos do continente. Suas áreas úmidas — veredas, campos úmidos, florestas inundáveis e matas de galeria — armazenam, filtram e liberam água em ritmos diferentes ao longo do ano.2 3

Chamar o bioma de “berço das águas” é uma imagem conhecida. O que ela tenta dizer, em linguagem simples, é mais concreto: a conservação de solo, vegetação e zonas úmidas ajuda a manter processos que sustentam rios muito além de uma única paisagem.

III · Trabalho, alimento e conhecimento

Depois da paisagem, vem aquilo que ela sustenta.

O Cerrado é um dos grandes territórios produtivos do Brasil. Mas essa capacidade não nasceu pronta: ela combina gente, pesquisa, estradas, crédito, mercados, experiências de manejo e décadas de ciência do solo. Em 2015, estimativa da Embrapa atribuía ao bioma 41% do valor da produção brasileira de lavouras, em seu recorte metodológico.4

Falar disso não diminui a beleza que veio antes. Dá a ela outra espessura. O mesmo horizonte que abriga veredas também participa da produção de grãos, carne, café, frutas, fibras e energia — em escalas e sistemas muito diferentes.

Grãos, café, frutas, leite, carne e cadeias regionais.

Algodão, madeira plantada e matéria-prima industrial.

Correção de solo, genética, manejo, monitoramento e extensão rural.

Conhecimentos locais, agricultura familiar e uso de espécies nativas.

IV · Produzir também é escolher

Não há uma única maneira de tirar alimento da terra.

A pergunta séria não é se o Cerrado deve produzir. É como aumentar produção, renda e segurança alimentar sem tratar água, solo e vegetação nativa como sobra.

Pastagens degradadas podem voltar a produzir e reduzir pressão por abertura de novas áreas.

Sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta reúnem práticas que dependem de planejamento e acompanhamento.

Satélites e bases abertas ajudam a acompanhar cobertura, uso do solo, fogo e água.5

Remanescentes, nascentes e áreas de recarga não são obstáculos exteriores ao sistema: são parte de sua sustentação.

O Plano ABC registrou expansão nacional de tecnologias de baixa emissão. Esses resultados não autorizam concluir que toda produção do Cerrado seja sustentável; mostram caminhos e limites que precisam ser verificados em cada contexto.6

Recuperar

Pastagens degradadas podem voltar a produzir e reduzir pressão por abertura de novas áreas.

Integrar

Sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta reúnem práticas que dependem de planejamento e acompanhamento.

Monitorar

Satélites e bases abertas ajudam a acompanhar cobertura, uso do solo, fogo e água.5

Conservar

Remanescentes, nascentes e áreas de recarga não são obstáculos exteriores ao sistema: são parte de sua sustentação.

V · Quando a conversa chega de longe

Uma regra europeia passou a fazer perguntas ao que produzimos aqui.

A União Europeia criou uma norma para reduzir sua contribuição ao desmatamento associado a certas cadeias de consumo. Soja, gado, café, cacau, óleo de palma, madeira, borracha e alguns derivados precisam atender condições específicas para circular naquele mercado.7

Em termos simples, a exigência pede informação sobre origem, localização das parcelas, risco e legalidade. O produto precisa ser apresentado como livre de desmatamento segundo as definições da própria norma. A aplicação para empresas maiores está prevista para o fim de 2026; para parte das micro e pequenas empresas, 2027.8

O que a norma procura saber

De onde veio? A cadeia precisa informar origem e geolocalização. Houve desmatamento depois de 2020? Esse é o corte temporal usado pela regra. Há risco? O operador precisa reunir informação, avaliar e mitigar quando necessário.

VI · O que a discussão não pode esquecer

A norma fala em floresta. O Cerrado é mais amplo do que essa palavra.

Uma savana pode ser rica, nativa, essencial para a água e ainda não caber inteira na categoria jurídica usada para protegê-la.

O critério europeu se concentra em desmatamento de florestas. Por isso, formações savânicas e campestres que não atendam à definição técnica podem ficar fora de sua proteção direta, embora sua conversão também tenha consequências para biodiversidade, carbono e ciclos hídricos.9

Isso não absolve a conversão no Brasil, nem torna inútil a exigência europeia. Mostra uma limitação importante: uma política pode ser rigorosa em seu campo e ainda enxergar apenas parte do território que pretende influenciar.

VII · Duas ideias para pensar uma distância

Há muito tempo a América Latina tenta entender por que algumas economias escrevem as condições e outras precisam se adaptar a elas.

Essa pergunta não começou com a EUDR. Ela atravessa uma tradição intelectual que procurou explicar as desigualdades do comércio internacional sem reduzir países e pessoas a papéis fixos. Dois autores ajudam a abrir a conversa, desde que usados como lentes — não como carimbos prontos.

Prebisch observou uma economia mundial na qual regiões industrializadas e exportadoras de produtos primários não capturavam da mesma forma os ganhos de produtividade e tecnologia. Sua questão era: como ampliar desenvolvimento sem aceitar a divisão internacional do trabalho como destino?11

Cardoso e Faletto olharam também para dentro: Estado, grupos sociais, alianças e capital estrangeiro. Para eles, dependência podia coexistir com crescimento — mas em trajetórias condicionadas por relações internas e externas desiguais.12

Essas ideias não “explicam” a EUDR sozinhas. Elas ajudam a formular perguntas: quem define os critérios? quem tem recursos para se adaptar? quem participa da decisão? quem fica com o custo?

Centro e periferia

Prebisch observou uma economia mundial na qual regiões industrializadas e exportadoras de produtos primários não capturavam da mesma forma os ganhos de produtividade e tecnologia. Sua questão era: como ampliar desenvolvimento sem aceitar a divisão internacional do trabalho como destino?11

Dependência e desenvolvimento

Cardoso e Faletto olharam também para dentro: Estado, grupos sociais, alianças e capital estrangeiro. Para eles, dependência podia coexistir com crescimento — mas em trajetórias condicionadas por relações internas e externas desiguais.12

VIII · A história de quem pergunta

A Europa também transformou profundamente suas próprias paisagens.

Não é verdade que o continente tenha eliminado todas as suas florestas. A história é mais complexa — e mais incômoda. Em longos períodos, usos humanos reduziram e fragmentaram cobertura florestal em muitas regiões europeias. Desde meados do século XX, parte da área florestal voltou a crescer por regeneração, abandono de terras agrícolas, plantio e manejo.13

Mas recuperar área não é o mesmo que restaurar, em toda parte, a composição, a idade, a continuidade e a biodiversidade de antigas florestas. Uma estatística de cobertura arbórea não conta sozinha a história ecológica de uma paisagem.14

Há uma preocupação ambiental real por trás das regras europeias. O consumo do bloco também está ligado a cadeias globais de desmatamento, e reduzir essa participação é uma responsabilidade legítima. O problema começa quando a exigência externa parece desconhecer a história de quem exige, a diversidade de quem é exigido e o custo desigual de cumprir.

O Cerrado não precisa escolher entre ser belo e ser produtivo.

Ele precisa de escolhas melhores: ciência, fiscalização, recuperação, renda, participação de comunidades, transparência e reconhecimento de suas próprias formas de vida. Também precisa que quem compra, financia e regula compartilhe responsabilidades — em vez de apenas deslocar exigências para o outro lado do oceano.

Conservar não é aceitar tutela. Produzir não é aceitar devastação. Entre essas duas falsas escolhas, existe um território real: gente, água, trabalho, memória e futuro.